Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp

Opinião: cuidado com os conselhos que você lê por aí

"Por acaso, quando alguém decide ser jornalista ou médico ou artista plástico vai buscar informações em grupos aleatórios de desconhecidos ou tenta profissionais já gabaritados?"

<opinião>

Quando alguém decide que vai ser médico, jornalista ou seguir qualquer outra carreira, essa pessoa pesquisa sobre o que vai ter que aprender, onde poderá trabalhar e quais caminhos deverá seguir para alcançar o reconhecimento. A pessoa também vai atrás de referências e de se manter atualizada sobre o mercado.

Se isso é uma verdade para qualquer carreira, por que é uma realidade tão distante para os escritores? Veja que aqui me refiro àqueles que desejam se profissionalizar, e não aos escritores que apenas querem ser publicados. Para estes, o caminho é parcialmente diferente. Falaremos deles em outra oportunidade. Agora, vamos voltar aos escritores profissionais.

O que tenho visto, seja em conversas diretas, seja acompanhando debates em grupos de redes sociais voltados aos escritores iniciantes, é um show de falta de informação sobre o mercado editorial, o processo de escrita de um livro e até mesmo sobre a escrita em si. E o que mais assusta é que gente com pouca experiência está aconselhando, ensinando e propagando erros a rodo.

Então, aqui vão minhas opiniões sobre afirmações que vejo com frequência nesses grupos:

  • “Escritor não precisa ler” — é um absurdo tão grande que me sinto tola em gastar o meu e o seu tempo tocando no assunto. Ler é fundamental para qualquer profissão, ainda mais para a de escritor. Leitura aumenta vocabulário, auxilia na construção da coerência, facilita no uso da linguagem, entre outras vantagens. E digo mais: leia como um escritor. Perceba as escolhas de palavras, a forma de construção da história, a estrutura dos diálogos etc.

 

  • “Escritor não precisa estudar, a escrita é um dom” — você pode mesmo descobrir um talento particular seu, que no início te fará se sentir muito especial e se destacar dos demais. Esse talento, se não for alimentado por estudo e conhecimento, logo mais será uma coisinha medíocre que não satisfará nem a você, nem a ninguém. Os grandes artistas podem ter se revelado ainda muito jovens com um talento nato, mas garanto que eles foram estudar as notas musicais, as cores e as palavras, para transformar aquilo que eles já tinham em algo ainda mais robusto e de qualidade.

 

  • “As editoras estão ficando ricas às custas dos escritores” — deixa eu dizer uma coisa: ninguém está ficando rico no mercado editorial, muito menos as editoras. Quando uma editora investe em um escritor, ela é a única que o faz. Tudo, 100% dos investimentos para lançar e divulgar o livro sai do bolso dela, mas — se o livro for para uma livraria — ela fica para si com uns 20% do preço de capa. “Ah, mas o autor fica só com 10%”. Verdade, mas ele não investiu nada. Estou aqui falando de número, valores… matemática. Quando a editora recuperar o valor investido, só então ela começa a lucrar; enquanto isso, toda a cadeia já está lucrando, mesmo que pouco.

 

  • “A editora é quem tem que fazer o marketing, e o autor escrever— isso nunca foi verdade em tempo nenhum da literatura, hoje é menos ainda hoje. Ninguém vende melhor uma obra do que o autor, e em tempos de mídias sociais isso é ainda mais verdadeiro. Quando o autor deixa a divulgação e o marketing na mão da editora e se exime… bom, ele deve estar pronto para não conseguir publicar seu próximo livro. Editoras são empresas e precisam sobreviver; o livro e o autor precisam gerar lucro, ou deixam de ser interessante. Ah, não fui eu que inventei as regras de mercado.

 

  • Agora, algo que não li, mas percebi. Se você deseja ser profissional, abandone o mais rápido possível as famosas “tretas”. Em geral, quem perde muito tempo com elas, vive ou vai viver de outra carreira, então pode se dar a esse luxo. Quem deseja viver de sua escrita precisa focar no que interessa: aprender, aprender e aprender.

 

Um bônus: viver exclusivamente da escrita no Brasil ainda é algo que não vi ninguém de fato conseguir. Somos um mercado relativamente pequeno e novo, em termos de leitores, e há uma concorrência forte com a literatura internacional. Tenha isso em mente  todo o tempo. Busque saídas. Há muita gente que não vive da escrita, mas está no mercado. Essa também é uma alternativa.